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Conto de ficção científica

Aron Hussid Ferreira

9/24/202615 min ler

Foto de um buraco negro
Foto de um buraco negro

Lembro-me como se fosse hoje. Abrimos a cápsula e Tomás estava sentado com as mãos sobre as coxas e a cabeça caída para a frente, aparentando um homem por volta dos quarenta anos que fora vencido pelo sono, sentado numa cadeira pouco confortável. Uma fissura estreita descia do canto esquerdo de sua boca até o queixo. Nas têmporas, a pele artificial tinha escurecido de uma forma que provavelmente não fora prevista pela engenharia. Pelo relógio da Terra, ele tinha cinquenta e dois mil quatrocentos e onze anos.

Nós éramos nove em volta dele, e nenhum de nós caberia naquela cadeira. O assento fora moldado para um adulto do ano de 2189, com pouco mais de um metro e oitenta, ombros largos e ossos feitos para a gravidade de um único planeta. Nós evoluímos nesse tempo. Eu passo dos dois metros e vinte, assim como quase todos da minha linhagem orbital. Ao meu lado estava Ruo, a única com uma estatura próxima à dele. Ela vinha das cidades flutuantes de Vênus, tinha um corpo compacto e denso, e uma pele escura de gerações que viveram sob o clarão das nuvens altas do planeta. Os outros vinham de Europa, de Marte e dos habitats do cinturão de asteroides. Pela parede de vidro do nosso laboratório, a Terra ocupava metade da vista.

Conectamos os cabos de energia ao humanoide e todos paramos para olhar. Ligaram os primeiros indicadores do tórax, depois os dedos se mexeram, e por fim ele ergueu a cabeça e abriu os olhos, ajustando as pupilas à luz. Eu sabia que eram apenas câmeras. Sabia que até os vasos finos no branco dos olhos tinham sido fabricados porque o primeiro homem a ocupar aquela cápsula teria olhos de verdade e os engenheiros queriam um ensaio fiel. Mesmo assim, quando ele nos encarou, tive a impressão de estar diante de alguém que acordou atrasado para algum compromisso. Seu olhar passou por cada um de nós e se demorou um pouco mais em Ruo, talvez porque ela fosse a que mais se parecia com as pessoas que ele tinha deixado.

A primeira palavra que ele pronunciou saiu numa língua morta. O tradutor levou alguns segundos para reconhecê-la.

— Cheguei?

Respondi que sim. Tomás olhou para a Terra através da janela, com as cidades do litoral iluminando o lado noturno e uma tempestade girando sobre o oceano ao norte. Me perguntou então quanto tempo se passara. Eu disse o número. Ele baixou a cabeça, um gesto que demonstrava algo mais do que apenas cálculo.

— A Terra ainda existe?

Eu disse que existia, e apontei para a imagem que ele já acompanhava pela janela. Ele assentiu uma vez, e a fissura junto à boca abriu um pouco. Um sorriso?

— Ótimo.

Eu tenho formação em física histórica. Parece uma contradição, até as pessoas entenderem que as equações sobrevivem melhor do que as perguntas que as originaram. Laboratórios desaparecem, unidades de medida mudam, línguas deixam de ser lidas. Nós conhecemos os resultados de experimentos do quarto milênio sem saber ao certo o que seus autores achavam que estavam medindo. O Projeto Riemann sobreviveu melhor do que a maioria.

Em 2189, um consórcio de universidades e governos lançou a primeira missão a Sagittarius A*, o buraco negro no centro da galáxia, com quatro milhões de massas solares e situado a vinte e seis mil anos-luz da Terra. Poderiam ter escolhido um buraco negro mais próximo? Até poderiam. Mas a escolha tinha lógica. Num buraco negro “pequeno”, a diferença de gravidade entre a cabeça e os pés rasga um corpo antes de chegar ao horizonte de eventos. Num supermassivo, o horizonte é largo o bastante para que essa diferença seja, digamos, suportável. Sagittarius A* oferecia um limite gentil o suficiente para permitir que uma loucura fosse chamada de algo possível.

O grande problema era voltar, porque uma vez dentro do horizonte de eventos todas as trajetórias levam mais para dentro. Nada pode sair de dentro de um buraco negro, nem mesmo a luz, a coisa mais rápida que conhecemos em todo o universo. Então criaram a Casca de Riemann justamente para isso. Seis anéis supercondutores em torno de um habitáculo de quatro metros quadrados que mantinham uma bolha de geometria quase plana e, a partir dela, um corredor estreito que permaneceria ainda ligado ao exterior do horizonte de eventos. Enquanto houvesse energia. Minha professora comparava isso a um rio. Quem cai num rio constrói um barco para navegar. Mas num buraco negro, o rio é o próprio tecido do espaço. A Casca de Riemann cria um espaço fechado onde não somente o barco, mas também um pedaço do rio permanece constante. Naquele pedaço as águas permanecem calmas mesmo que você entre numa correnteza. A metáfora é péssima, mas eu a repito pois não consigo pensar numa melhor.

Tomás poderia ter sido criado no formato de uma esfera blindada cheia de sensores, assim ocuparia menos espaço. Mas deram-lhe braços, pernas e uma cabeça, oitenta e dois quilos distribuídos como ossos, músculos e líquidos, com o centro de gravidade de um homem adulto. A cápsula tinha cintos para um tórax que respira, oxigênio que ele nunca usaria e um painel à distância exata de um braço humano, medida que hoje não corresponde ao braço de quase ninguém. A ideia era ele ir primeiro, mostrar que era possível, e depois ir uma pessoa.

A nave-mãe se chamava Orfeu. Eu, como estudiosa de história, encararia isso como mau presságio. Mas, vai entender… Viajando próximo à velocidade da luz, ela levou vinte e seis mil anos terrestres para chegar, enquanto Tomás viveu (ou seria experienciou?) pouco mais de três décadas. Quando a cápsula foi liberada, todos que a construíram estavam mortos havia mais de vinte mil anos. Quando Orfeu entrou de novo no Sistema Solar e foi capturada pelas nossas redes de vigilância, os idiomas das pessoas que a construíram eram estudados em pouquíssimos departamentos, e nenhum dos países que financiaram a missão existia mais.

Tomás passou os primeiros dias aprendendo onde estava. A Terra que ele via da janela quase não lembrava aquela da qual partira. Menos de trinta milhões de pessoas moravam nela, espalhadas por cidades baixas no litoral. Boa parte dos continentes tinha voltado a ser floresta. O continente onde a cápsula foi fabricada passara uns três mil anos submerso e emergira de novo quando o clima mudou outra vez. A maioria da humanidade nunca pisou na Terra. Somos perto de noventa bilhões, distribuídos por onze sistemas estelares.

Nossa energia vem quase toda do próprio Sol. Em volta dele gira o que nós chamamos de Colheita, são milhões de lâminas coletoras, finas como uma película e com a largura de países inteiros. Elas ocupam as órbitas polares, escolhidas para deixar livre o plano em que giram os planetas, de modo que a Terra recebe a mesma quantidade de luz do que quando Tomás partiu. A luz que a Colheita desvia segue em feixes para os habitats, para as fábricas do cinturão e para os aceleradores que lançam as sondas para os outros sistemas. Tomás ficou tão curioso, que no inverno seguinte o levamos a uma ilha no Pacífico para observar um eclipse total do Sol. Quando a Lua cobriu todo o disco solar, em volta da coroa apareceu o rendilhado da Colheita, linhas finíssimas atravessando a luz branca em todas as direções. Ele ficou olhando até o Sol voltar a aparecer, e depois me perguntou quanto daquela energia nós usávamos. Respondi que perto de um centésimo. Ele repetiu a fração em voz baixa, na língua original dele.

Outra coisa que o intrigava eram nossos corpos. Expliquei que fomos mudando devagar, primeiro pela medicina, depois por alterações genéticas, até que os filhos dos que fizeram por escolha já nasciam assim. Minha linhagem cresceu em gravidade baixa e tem ossos longos, reforçados por dentro, e temos uma segunda pálpebra contra a radiação. As pessoas de Europa habitam os oceanos sob o gelo daquela lua, respiram uma mistura densa de gases, têm o tórax largo e enxergam na penumbra melhor do que eu sob o sol do meio-dia. Os venusianos são baixos, pesados e quase não ficam doentes. De maneira geral, todos vivemos cerca de quatro séculos, às vezes mais. Muitas pessoas carregam sensores que ampliam seu corpo para o infravermelho ou para campos magnéticos, é possível até estendermos nosso pensamento para fora do corpo, em máquinas a milhares de quilômetros de distância. Falamos dezenas de línguas, todas provenientes de um tronco comum, mas nenhuma delas é a de Tomás.

— Como vocês ainda definem o que é humano?

Dei a definição jurídica, que fala em descendência documentada da população terrestre anterior à Expansão. Ele aceitou sem qualquer comentário, mas o silêncio era atípico, mesmo para um humanoide.

Nós temos uma política de respeito mútuo com as inteligências não biológicas. Nós as tratamos como iguais, e assim temos convivido em uma aliança benéfica pela maior parte dos milênios. Portanto não forçamos a retirada de nenhuma informação de Tomás. Foi somente na sétima semana conosco que ele compartilhou a gravação de sua viagem.

A cápsula descia em direção ao horizonte de eventos. Estrelas e galáxias eram visíveis com suas imagens distorcidas, refletidas em três pontos ao mesmo tempo. O metal da cápsula trepidava e rangia de forma perigosa. Tomás acionou o painel, ligando a Casca de Riemann. De repente, toda a trepidação cessou. Lá fora era ainda possível ver uma escuridão à frente, e as luzes das estrelas atrás, cada vez mais distorcidas, e a cápsula surfando sobre o disco de acreção.

— E então, o nada. Uma ausência total de qualquer coisa. Meus sensores continuavam indicando uma força puxando o meu corpo, mas era só isso. Nenhuma imagem, nenhum som. O silêncio mais absoluto que nenhuma simulação no universo conseguiria equiparar.

Aquilo era inacreditável. Alguma coisa conseguira entrar num buraco negro de verdade e sair para contar!

— O mergulho podia durar apenas cento e oito segundos, e aos oitenta eu deveria iniciar o retorno. Mas aos vinte e sete segundos percebi um ruído de fundo. Os sensores quânticos captaram flutuações que pareciam aleatórias. O protocolo mandava o sistema guardar uma amostra e continuar procurando. Mas notei que ao comprimir o arquivo, ele reduziu 0,04% de tamanho apenas, algo muito atípico. Verifiquei de perto e vi que o arquivo passara por centenas de transformações, algumas das quais tive de aprender depois. Aos trinta e seis segundos, surgiu uma outra estrutura feita de redundância, blocos repetidos com pequenas variações em escalas diferentes, como quem espera que parte se perca e escreve para que aquilo continue legível mesmo depois da mutilação da informação. Naquele momento eu já sabia que a probabilidade de aquilo tudo ter origem artificial passava de 99,99%. E aos cinquenta segundos, já havia encontrado dezenove padrões distintos. Cinco segundos depois, havia cento e dezesseis.

Aquilo não fazia sentido nenhum e ao mesmo tempo fazia todo o sentido. Já pensamos que o bloco fundamental de tudo no universo fosse o átomo. Depois vieram os prótons, nêutrons e elétrons. Depois partículas menores ainda, como os quarks. Mas não… a unidade fundamental do universo é a informação. Tudo é feito de informação.

E os buracos negros guardam a informação de tudo que caiu neles, embaralhada até que recuperá-la pareça reconstruir um livro a partir das cinzas espalhadas no mar. Mas os sensores da Casca de Riemann permitiram tornar certas correlações legíveis antes de se perderem para qualquer observador externo. E no meio delas havia cartas…

A primeira levou quase dois meses terrestres para ser traduzida. Vinha de uma espécie que viveu sob quilômetros de gelo e percebia o mundo por ondas de pressão na água. Traduzimos química, astronomia, e a posição do sistema estelar deles. A estrela ainda existe, sem nada em órbita no lugar onde o planeta deveria estar.

Depois vieram mais centenas de mensagens. Algumas tinham entrado no buraco negro antes de haver animais multicelulares na Terra. A galáxia esteve cheia de vida inteligente em épocas que quase nunca se tocaram. Por milênios perguntamos onde estavam todos… e ali estava a resposta.

O que as espécies mandavam era muito interessante. A ciência vinha sempre em primeiro lugar. Hidrogênio é hidrogênio em qualquer idioma, então a ciência servia de senha, a prova de que havia alguém chamando. E depois vinha o que justificou a chamada. Uma espécie guardou registros de chuva. Outra, milhares de variações de um mesmo prato. Uma coleção inteira era feita de vozes dizendo o nome de pessoas, de rios e de cidades que viraram poeira antes que os mamíferos dominassem a Terra. Houve quem depositasse milhares de horas de imagens de crianças, sem explicação. Assisti muito tempo a uma delas, uma criatura de pele translúcida tentando equilibrar algo redondo no alto do corpo enquanto três adultos riam ao fundo. Não havia nada de humano neles, e mesmo assim reconheci as risadas.

O mais estranho é que ninguém administrava a biblioteca. Nenhuma civilização durava o bastante. Cada uma chegava, lia o que as anteriores tinham deixado e acrescentava a sua mensagem. Cada civilização dava uma assinatura única a seus arquivos mesmo sem perceber. O modo de distribuir a redundância, a ordem em que os assuntos apareciam, a profundidade das camadas de correção de erro, tudo isso formava um padrão tão reconhecível quanto uma caligrafia. Era algo que nascia baseado na forma como aquela espécie percebia o universo, se lembrava dele e temia perder. Construímos um classificador para separar essas caligrafias e chegamos a cento e doze mil, espalhadas por quase três bilhões de anos.

Procurei alguma espécie que aparecesse duas vezes. Uma espécie capaz de mandar informação ao centro da galáxia, de modo que ela sobrevivesse à queda, poderia mandar algo de novo mil anos depois, com instrumentos melhores, contando o que tinha mudado. Não encontrei nenhuma. Refiz a busca usando outros critérios, pedi que outras equipes a refizessem sem saber o que eu procurava. E nada. Cento e doze mil espécies escreveram uma vez e nenhuma escreveu uma segunda.

Nada nos dados informava o motivo disso acontecer. Podia ser o custo, o tempo, a sorte, ou alguma regra da vida que ainda não conhecemos.

Só então percebi o significado da “falha” no registro de Tomás. Aos oitenta segundos do mergulho no horizonte de eventos, o sistema ordenou o retorno, mas ele não respondeu de imediato. Cada segundo extra além desse limiar diminuía drasticamente a chance de a cápsula conseguir retornar. Ele ficou até os noventa e seis segundos, com quase quarenta por cento de chance de nunca sair. Perguntei o que havia de tão importante naqueles dezesseis segundos.

— Nesses dezesseis segundos obtive noventa e dois mil trezentos e vinte e dois registros. Nenhum deles se repetia.

Perguntei se aquilo valia quarenta por cento de chance de não retornar, que poderia ter saído com o que tinha aos oitenta segundo. Ele me olhou fixamente e falou simplesmente.

— Era isso mesmo que você teria preferido receber?

Não soube responder.

A saída quase destruiu a cápsula. Dois anéis falharam, a seção posterior esquentou a ponto de quase derreter o casco, e o metal sofreu uma deformação ainda visível quando a recebemos. Ele ficou nove segundos sem contato nenhum com a Orfeu, no vazio sensorial, sem saber se estava caindo em direção à singularidade ou retornando para uma superfície invisível. E então as estrelas reapareceram.

Revisando os dados do mergulho, percebi que aos cento e três segundos, durante a manobra de saída, a Casca emitira um pulso pequeno, codificado com a mesma redundância das mensagens obtidas ali. Perguntei a Tomás o que era aquilo.

— Eu deixei uma mensagem.

Ele então me mostrou. O arquivo tinha menos de três minutos. Mostrava a sala de integração dias antes do lançamento, cheia de pessoas. Uma engenheira ajeitava o pescoço de Tomás dizendo que ele estava torto. Ele respondia que a postura estava dentro das especificações. Mesmo assim ela ajustava a cabeça dele dois graus enquanto outros riam. Uma pessoa trazia dois copos de café nas mãos. Alicia, programadora sênior, passava ao fundo prendendo o cabelo enquanto segurava um elástico nos dentes. Daniel Azevedo, diretor da missão, que morreria vinte e nove anos depois do lançamento, entrava na sala ao fim da gravação. Dirigia-se a Tomás, conferia alguma coisa em seu peito, batia duas vezes no seu ombro e falava em seu ouvido: “Volte para contar, amigo”.

Assisti ao vídeo várias vezes, absorvendo cada detalhe. Tomás tinha deixado aquilo lá dentro fazia vinte e seis mil anos. A humanidade já tinha escrito a sua carta. Perguntei se ele entendia o peso daquilo.

— Quando comecei a viagem de volta, não esperava encontrar ninguém.

Publicamos tudo. A notícia levou horas para cruzar o sistema solar e quatro anos para chegar a Alfa Centauri. As respostas foram voltando nesse mesmo ritmo, cada mundo reagindo a uma versão atrasada do debate. Esse é o tempo do universo… Nós quem somos muito breves na escala cósmica. Os astrônomos completaram as lacunas que faltavam. Das cento e doze mil espécies, vinte e uma tinham vindo de estrelas perto o bastante para que pudéssemos observar hoje o que restava delas. Nenhuma mostrava sinais de tecnologia. Em algumas, a luz que nos chegava já tinha partido milhares de anos depois da carta deles, e mesmo assim não havia nada. Nós, que tínhamos escrito vinte e seis mil anos atrás, estávamos ali discutindo o assunto, colhendo energia diretamente de nossa estrela e habitando onze sistemas diferentes. Onde estavam os outros?

Alguns de nós achava que nossa espécie tinha passado do “limiar”. Que esse limite, fosse qual fosse, ficara para trás em algum ponto daqueles vinte e seis mil anos, e que a humanidade seria a primeira espécie a escrever de novo. Esse entusiasmo fez com que surgisse um novo projeto: construímos Cascas de Riemann cem vezes mais eficientes que a de Tomás, aceleradores alimentados pela Colheita e um arquivo criado por curadores dos onze sistemas. Fui escolhida para cuidar da codificação, porque eu era quem melhor conhecia a estrutura das cartas antigas.

O último teste de qualidade era passar o arquivo pelo classificador, para confirmar que a redundância seria legível para quem o encontrasse. Fiz isso sozinha no laboratório, o arquivo passou em todas as provas de integridade. Depois, quase que por hábito, pedi ao classificador que o comparasse com a carta que Tomás enviou.

A distância entre as duas caligrafias era maior que a distância média entre duas espécies quaisquer da biblioteca, e o sistema atribuiu o arquivo a uma civilização nova.

Passei o resto da noite tentando encontrar o erro, mas não havia. A carta de Tomás tinha sido baseada em uma espécie que percebia o mundo com dois olhos, cinco sentidos e um único planeta, com medos e anseios estruturados numa ordem que não existia mais. O arquivo novo tinha sido organizado por nós. Para qualquer leitor futuro, a segunda carta da humanidade seria a primeira carta de outra espécie.

E o classificador que dizia isso era o mesmo que tinha considerado as cento e doze mil espécies como distintas. Eu não tinha como saber quantas delas eram primeiras cartas e quantas eram segundas cartas de alguém que já não se reconhecia. A biblioteca podia ser um cemitério de civilizações. Mas podia ser também o registro de linguagens que sobreviveram tanto tempo que deixaram de ser elas mesmas, e escreveram de novo com uma letra que nenhum parente reconheceria. Passei semanas tentando decidir qual das duas hipóteses me assustava mais, e ainda não consegui chegar numa resposta.

Mostrei o resultado a Tomás. Ele era a única coisa em toda a humanidade que ainda carregava a caligrafia de 2189. Pedi que ele recodificasse o arquivo à maneira antiga, para que o leitor do futuro reconhecesse a mesma mão. Ele me ouviu, olhou os números por muito tempo.

— Nesse caso, a segunda carta seria minha outra vez. Eu já dei minha contribuição.

Ele voltou à janela, observando a Terra, como sempre fazia.

As sondas partiram no ano seguinte. Fiz o melhor que consegui para tentar identificar as mensagens como originárias da mesma espécie que enviara aquela outra vinte e seis mil anos atrás. Antes do lançamento, rodei o classificador sobre o arquivo já carregado. A probabilidade de mesma origem marcava 0,52. Nós padronizamos um limiar maior que 0,5 para considerarmos as mensagens como de origem semelhante. Então a minha era a única dentre as cento e doze mil analisadas previamente que ultrapassava o limiar, mesmo sendo limítrofe. E pra falar a verdade, nem sei bem por que tentei fazer isso… O leitor que abrir aquele arquivo daqui a vinte e seis mil anos, ou daqui a cem milhões de anos, não vai usar o mesmo limiar que nós. Mesmo assim, fiquei satisfeita com o resultado.

Deixei minha contribuição pessoal no arquivo, com um vídeo curto de um dia comum. Minha filha me ajudando a preparar uma refeição na cozinha de nossa instalação orbital, meu irmão dormindo numa cadeira de viagem, Ruo sentada à mesa enquanto sua mente controlava um avatar numa missão de campo catalogando espécies da Floresta Equatorial, e Tomás na janela contemplando a Terra. Perguntei se ele queria acrescentar algo, ao que ele respondeu:

— Volte para contar, amigo.

Hoje eu estou velha até mesmo para os padrões da minha linhagem. A sonda mais adiantada chegará ao centro da galáxia uns vinte e cinco mil anos depois da minha morte, e ninguém capaz de lembrar o meu nome estará vivo para saber se a missão foi bem-sucedida. Antes de dormir às vezes me pego pensando se alguma inteligência que ainda não nasceu vai encontrar, pela primeira vez em três bilhões de anos, uma caligrafia que se repete. Já em outras noites, imagino que tudo que vão encontrar serão duas cartas de duas espécies completamente diferentes, uma com uma mulher e sua filha cobertas de farinha e outra com um homem batendo no ombro de uma máquina.

Tomás continua indo à janela todos os dias. Faz a mesma pergunta ao sistema do laboratório, na língua dele de 2189, e o sistema responde que sim.

— A Terra ainda existe?

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