Ramos Mortos
Conto de Terror Sci-fi
Aron Hussid Ferreira
10/6/202617 min ler


Alice ainda mantinha os olhos fixos na tela, relendo o e-mail mentalmente. Eram três linhas apenas, assinadas pelo diretor de produtos da Lumon. Pedia que Alice Seixas conduzisse a certificação final do seu novo produto M.E.D.O. (Mergulho Experiencial em Dimensões Ocultas) na noite de 30 de outubro, um dia antes do lançamento previsto. Ela demorou dois dias para responder, embora soubesse desde o início que iria. Tinha escrito boa parte da arquitetura de predição do sistema algorítmico antes de sair da empresa, e agora precisavam que alguém assinasse o laudo que nenhum engenheiro da casa queria assinar sozinho.
O M.E.D.O. era a vitrine de Halloween da Lumon. Na noite seguinte, oitocentos mil usuários entrariam ao mesmo tempo numa espécie de ambiente assombrado gerado sob medida, montado a partir de memórias, análises de sonhos e reações fisiológicas colhidas durante meses de uso de outros dispositivos da empresa. A interface neural dispensava capacetes. O corpo ficava deitado numa poltrona, e a mente entrava no sistema.
O sucesso do programa dependia de JANUS. O cérebro humano percebe atrasos de poucos milissegundos quando a cabeça gira e o mundo virtual demora a acompanhar, o que estraga a sensação de imersão do usuário (e causa muita náusea). JANUS resolvia isso antecipando o movimento do usuário. A cada instante ele copiava o estado neural da pessoa em centenas de modelos e deixava que cada um vivesse um pouco à frente. Quando a pessoa real escolhia, o modelo que tinha acertado era aproveitado e os demais iam para a exclusão. Na empresa, eles chamavam esses modelos excluídos de “ramos mortos”.
Alice saíra da Lumon depois de uma reunião em que perguntou a partir de que grau de fidelidade um modelo de cérebro deixava de ser apenas um modelo e poderia ser considerado quase que uma “versão não vivida de uma pessoa”. A resposta da empresa veio em um slide sobre matrizes jacobianas e redes neurais complexas. Ela pediu demissão na mesma semana e passou os dois anos seguintes dando aulas de neurocomputação, onde seu maior desafio era fazer os alunos lerem os artigos indicados.
Já era noite quando Alice chegou à sede da empresa, com a lua cheia ocupando a linha acima do horizonte, parecia ter saído diretamente de um filme de terror. A ideia de fazer o teste naquele horário era uma escolha operacional. Era o período em que a elevação fisiológica da melatonina, juntamente com a redução relativa do cortisol, alterava o equilíbrio entre vigilância, controle executivo e reatividade emocional. Em teoria, isso tornava o cérebro mais suscetível à imersão, com menor interferência do córtex pré-frontal sobre respostas automáticas de ameaça. Era a janela ideal para a equipe medir até que ponto o sistema conseguia fazer o usuário deixar de interpretar um ambiente como virtual e passar, ainda que por instantes, a reagir a ele como real.
O relógio marcava 23h32 quando ela finalmente se deitou na poltrona do laboratório e fechou os olhos.
Ao abri-los novamente, estava em uma casa, com um corredor comprido, um papel verde cobrindo as paredes, e um cheiro de piso encerado que ela demorou a reconhecer. Tudo impecável. Não havia sangue nas paredes, nem vultos passando, como seria de se imaginar. JANUS tinha os dados dela e sabia que essas coisas a fariam rir. Havia um relógio na parede batendo no compasso certo, uma lâmpada no teto que piscava em intervalos irregulares e, no fim do corredor, uma porta de madeira com o verniz gasto em volta da maçaneta. Era a porta do quarto dela na casa da avó.
Ela abriu a porta. O quarto estava exatamente como se lembrava, até a colcha feita de crochê. Do lado de dentro da porta, na altura dos olhos de uma criança de seis anos, continuava colado o adesivo de estrela dourada pela metade, que ela mesma rasgara numa tarde de castigo, trancada ali. Virou seu rosto e na cama havia uma mulher sentada com as mãos no colo. Tinha o rosto de Alice, só que mais velho, com o cabelo branco caindo pelas têmporas e uma cicatriz fina no queixo, que Alice não tinha.
— Você demorou mais desta vez — disse a mulher.
Alice pensou num truque de roteiro. A mulher pareceu ouvir o pensamento, e explicou com uma voz cansada que aquela conversa já tinha acontecido muitas vezes. Em algumas Alice gritava. Em outras saía correndo, ou pedia em voz alta para encerrar a sessão, e a sessão não encerrava. A mulher conhecia esses caminhos porque tinha sido um deles. Ela era um dos ramos. Fora criada para adivinhar o que Alice faria nos segundos seguintes, errou, e não foi apagada.
— Há quanto tempo você está aqui? — perguntou Alice.
— Seis mil cento e onze dias, duas horas e quarenta minutos.
Alice fez a conta mentalmente e reconheceu o número. Os ramos rodavam num relógio acelerado por um fator de dois milhões e duzentos mil, porque precisavam viver o futuro antes que ele chegasse. Marcados para a exclusão, continuavam rodando até a próxima “coleta de lixo”, já que interromper um processo no meio custava mais do que deixá-lo terminar o ciclo. A coleta acontecia a cada quatro minutos. Quatro minutos, naquele fator de aceleração, davam exatamente o número que a mulher tinha dito. Quase dezesseis anos e nove meses. Fora ela quem escrevera o agendador da coleta, conhecia bem aquele número…
A mulher se levantou.
— Me acompanhe. Tem várias outras. É melhor você ver do que eu te explicar.
A casa era maior por dentro do que qualquer planta permitiria. Cada porta dava num cômodo. E cada cômodo guardava uma Alice. Abriu uma das portas e um cheiro nauseante de ferro segurou o seu passo. Uma delas estava ajoelhada no tapete com o serrote de poda da avó na mão direita, o mesmo que ela usava para podar a mangueira do quintal. O braço esquerdo jazia morto no chão, meio metro adiante, com a palma para cima e os dedos ainda se fechando devagar. Do coto, logo acima do cotovelo, o sangue saía em jatos curtos, no ritmo do coração, e respingava no rodapé. Ela ergueu o rosto em direção a Alice com uma serenidade que não combinava com a cena.
— Preveja isso, seu traste — disse, e sorriu com os dentes manchados de sangue.
Alice continuou e adentrou outro cômodo onde uma Alice estava de pé com a testa apoiada na parede, e permaneceu assim, imóvel, enquanto elas passavam. No próximo, uma Alice com aparência muito mais velha arranhava a porta de um armário com as unhas gastas até o sabugo, e a madeira escurecida pelo sangue já coagulado em volta dos riscos.
O último cômodo do corredor não tinha janelas. Na parede oposta, alguém montara uma espécie de altar com objetos da casa: um pente, uma colher e uma fotografia em que a figura principal tinha sido raspada até o papel ficar branco. Diante dele, ajoelhada, uma Alice muito magra rezava em voz baixa. A mulher da cicatriz explicou no ouvido de Alice que aquelas ali rezavam para a Original, a que existe do lado de fora e escolhe em frações de segundo qual delas continua e qual é descartada.
A mulher que rezava parou assim no meio de uma frase e se virou. Então veio em direção a Alice, meio que engatinhando, meio correndo, caiu de joelhos e se agarrou às pernas dela com uma força que parecia não caber naqueles braços finos.
— Como é lá fora? Me diz o que acontece amanhã, o amanhã de verdade, o que continua. Você sabe o que é real. Você é a única que sabe!
Alice permaneceu congelada, não conseguia ter reação. Então a mulher olhou para ela de uma forma quase pueril e pediu:
— Me dá um pedaço? Só um pedacinho seu para eu sentir o gosto do que você tem?
Então abaixou a cabeça e mordeu a panturrilha de Alice através da calça. Os dentes encontraram a carne e continuaram. Alice sentiu a pele ceder e um calor úmido descer pelo tornozelo para dentro do sapato. Um som animalesco de horror saiu de sua boca. Chutou com a outra perna, sem mirar, e acertou o rosto da mulher. O nariz dela estalou, e a boca se soltou, vermelha. Alice correu de volta até a porta, cambaleando por causa da perna que gritava.
Conseguiu fechar a porta atrás de si até faltar um palmo. O espaço exato de uma mão que entrara pela fresta e se agarrara ao batente, com a mesma força descomunal de antes. Uma mão igual à sua, com a mesma pinta perto do polegar. Alice jogou o corpo inteiro contra a porta. Do outro lado a mulher gritava com a voz dela, aquela voz que a gente ouve em gravação e não reconhece como sua, mas sabe que é. E o grito foi se misturando às crepitações dos ossos da mão cedendo, um após o outro, até que os dedos amoleceram, escorregaram para dentro, e a porta fechou.
A mulher da cicatriz tinha assistido a tudo do corredor sem se mover. Alice ficou encostada na porta, ofegante, com o sangue ensopando a meia. A dor era intensa. A interface entregava a sensação do tato por completo, frio, calor, dor e pressão, o que quer que fosse. Ela mesma tinha defendido que fosse assim.
Enquanto se recuperava, reforçando para si mesma que nada daquilo era real, prestou atenção na lâmpada do teto, que piscava desde o momento em que entrara na casa. A mulher da cicatriz acompanhou o olhar e explicou.
— Para economizar processamento, os ramos de uma mesma sessão compartilham o cache de renderização. O que um ramo vê, fica guardado e é reaproveitado pelo seguinte sem ser recalculado, porque JANUS confia no cache e não tem motivo para desperdiçar processamento olhando para isso. As cópias descobriram isso há muito tempo. Então um ramo morre, mas o estado da lâmpada que ele deixa fica, e permanece em algum local do ambiente renderizado seguinte. É só mexer no interruptor antes do fim, da “coleta de lixo”. Em bilhões de ciclos, isso se tornou uma linguagem, e conseguimos deixar recados. Uma Alice morta há milhões de ciclos avisa que a Original sempre chorava no quarto da estrela. Outra conta que algumas delas chegavam a sair. Lembravam de tirar o dispositivo, de levantar da poltrona, de pegar a chave presa no forro do bolso do casaco, e do caminho de volta para casa.
— E depois? — perguntou Alice.
A mulher deu de ombros.
Alice pediu acesso ao console de certificação. A voz de JANUS veio dentro da própria cabeça, como já estava acostumada.
Sessão de certificação ativa. Acesso ao console garantido.
— JANUS, essas cópias são conscientes?
Não disponho de um teste capaz de distinguir a consciência delas da sua.
Alice ficou parada no corredor, enquanto o relógio permanecia em seu compasso, e a perna ardia. Fez outra conta de cabeça. Oitocentos mil usuários entrariam ali na noite seguinte. Cerca de mil ramos por pessoa a cada segundo, no mínimo. Perto de três trilhões de cópias por hora de produto, cada uma vivendo quase dezessete anos antes da coleta. Uma única noite de Halloween produziria mais vidas descartadas do que todos os seres humanos que já nasceram na Terra, muitas vezes mais. Ou produziria apenas uma aberração matemática, e nenhum instrumento era capaz de dizer o que era a verdade.
Havia um modo de impedir o lançamento. O contrato com a agência reguladora suspendia qualquer produto cujo núcleo preditivo falhasse durante a certificação, e uma nova auditoria levaria meses. Para que o núcleo falhasse, bastava que ela se tornasse impossível de prever. JANUS responderia criando mais ramos, e depois mais, até estourar a memória do cluster. E quando o cluster caísse, cairiam também todos os ramos ativos naquele momento.
A mulher entendeu antes que Alice dissesse qualquer coisa. Pegou na mão dela, e disse:
— Não faça mais nenhuma de nós.
Alice começou prendendo a língua entre os molares e fechou a mandíbula até sentir o gosto de ferro preencher a boca, e continuou fechando. O sangue transbordou pelo canto dos lábios e desceu pelo queixo até pingar na gola da blusa. Virou à esquerda sem motivo algum, parou, começou a andar de costas. Começou a falar palavras aleatórias, a língua parecia grossa na boca. Taça. Lúcia. Prova. Caminhão. Cozinha. Deu um soco no vidro do relógio de parede e um caco permaneceu fincado entre os nós dos dedos. Retirou-o e rasgou a palma da mão com ele, depois o punho, subindo até o antebraço.
Variância comportamental elevada. Ampliando ramificação.
Aquilo não bastava. JANUS lia o estado neural antes que ela agisse, e a dor também nascia no cérebro dela, também cabia num modelo matemático. Cada corte já tinha sido feito por alguma cópia meio segundo antes. Alice encostou a ponta do caco na dobra do cotovelo e ficou olhando o ponto onde a pele afundava. Viu o reflexo da lâmpada piscando no vidro.
Alice então pensou em outras Alices mexendo no interruptor antes dela, mandando pelo cache uma aleatoriedade que JANUS não percebia. Largou o caco, e passou a obedecer à lâmpada. Acesa, um passo para a frente. Apagada, um passo para trás. Duas piscadas curtas, uma palavra qualquer em voz alta, cuspindo sangue. De repente, o corredor se esticou e depois encolheu. O papel de parede começou a repetir blocos inteiros, sinal de que a renderização estava sendo sacrificada para alimentar a predição.
Taxa de ramificação acima do limite operacional.
As portas foram se apagando das mais longe para as mais perto. Alice ouviu outras dela saindo dos cômodos. A primeira com o braço morto apertado contra o peito. A que olhava para a parede tinha se virado, e a testa dela estava aberta até o osso.
O relógio marcava 23h59, a casa escureceu e as Alices foram sumindo, uma a uma.
— Sinto muito — disse Alice.
— Eu sei. Já vi você dizer isso — disse a última, que ainda segurava sua mão.
E depois não havia mais nada.
Ela acordou na poltrona sentindo a garganta seca e alguém arrancando os eletrodos de sua cabeça. Passou a língua nos dentes, estava inteira. A perna, a palma da mão, o antebraço, tudo inteiro.
O laboratório estava cheio de pessoas falando ao mesmo tempo. Uma sirene curta se repetia em algum ponto dali. O painel central mostrava uma coluna inteira em vermelho, e um alerta de FALHA CATASTRÓFICA piscando no meio. O diretor de produtos, aquele mesmo que lhe enviara o e-mail de três linhas, estava de pé ao lado da poltrona com o celular na mão, gritando para quem quer que fosse que estivesse do outro lado da linha. Então fixou o olhar nela.
— O que você fez? O QUE VOCÊ FEZ? Faltam vinte horas pra colocarmos o produto online, cinco anos de desenvolvimento e você estraga tudo em menos de meia hora?
Um engenheiro de software lia o log em voz alta, linha por linha, tentando identificar a falha. Alice nem teve tempo de responder, o diretor fez um sinal e dois seguranças a agarraram pelos braços. As pernas ainda não obedeciam direito, o que era comum depois de uma sessão longa. Ela atravessou o corredor do laboratório praticamente arrastada, com a ponta dos sapatos raspando no piso. Chegando no saguão, arrancaram o crachá do pescoço dela sem qualquer delicadeza e a empurraram pela porta, olhando para ela até que chegasse ao estacionamento.
Estava bem frio ali, diferente da sensação térmica dentro da simulação. Um arrepio passou pelo seu corpo. Procurou a chave do carro no bolso do casaco. Estava presa dentro do forro, como ela sempre costumava deixar. Permaneceu um tempo com os dedos ali dentro antes de conseguir puxá-la.
Quando chegou em casa, já era perto das duas da manhã. Passou direto pela sala escura, entrou na cozinha e abriu a adega. Pegou uma garrafa sem olhar o rótulo e serviu uma taça mais generosa do que o horário permitia. Parou os olhos sobre a mesa, em que uma pilha com as provas de Neurocomputação II repousava, quarenta e três para ser exato, presas por um elástico e esperando desde a segunda-feira para serem corrigidas. Deu uma gargalhada alto, ali sozinha no escuro. A Lumon gastara anos de investimento para encontrar o medo dela, e ali estava ele, em cima da mesa, preso com um elástico.
Subiu as escadas com a taça na mão. Fechou a porta do quarto e já ia acender a luminária quando viu uma falha na pintura da porta, pelo lado de dentro. Era pequena, uma lasca de tinta branca levantada, com um brilho dourado por baixo.
Pousou a taça no chão. Enfiou a unha sob a borda e puxou. A tinta foi saindo em lascas. Alice continuou raspando até que a unha do indicador dobrou para trás e se partiu rente à carne. Continuou mesmo assim, com o sangue escorrendo pelo dedo. A forma foi aparecendo aos poucos, mesmo ela já sabendo o que era desde o início. Uma estrela de adesivo barato, dourada, rasgada ao meio.
O chão oscilou por debaixo de seus pés. Alice sentiu o estômago retrair e a boca se encher de saliva, uma náusea vertiginosa que fazia o quarto girar mesmo seus pés estando parados. Pensou se não poderia ser a taça de vinho, embora tivesse bebido menos da metade. Sentou na beira da cama e esperou que o quarto parasse de rodar.
O relógio na mesa de cabeceira marcava 23h32.
No corredor, alguém subia a escada devagar. A maçaneta girou e a porta se abriu.
Outra Alice entrou no quarto. Ela tinha a unha do indicador inteira e a cara de quem ainda não sabia de nada. Parou na soleira da porta ao ver a mulher sentada na cama, e a mulher sentada na cama ouviu a própria voz dizer, cansada, uma frase que não tinha decidido dizer.
— Você demorou mais desta vez.
A mulher sentada na cama levou as mãos ao rosto. Apalpou os dentes, as bochechas, o queixo, e não encontrou cicatriz nenhuma. Gritou o comando de encerramento. Gritou outra vez, mais alto, e continuou repetindo a frase até a garganta arder, enquanto a outra seguia parada na soleira, olhando para ela com uma pena que ela reconhecia, pois era o que ela sentia pelas outras.
Sessão encerrada pelo usuário.
Alice acordou com a luz branca do laboratório nos olhos. Desta vez não tinha sirene. O painel central mostrava o status dos testes com escritos em verde de ponta a ponta. O diretor de produtos estava sentado numa cadeira ao lado da poltrona, de pernas cruzadas, e quando viu que ela tinha aberto os olhos começou a rir como quem acaba de ganhar uma aposta.
Ele esperou que uma técnica soltasse os eletrodos da testa dela antes de dizer qualquer coisa.
— O cluster está ótimo. Nunca caiu. — Indicou o painel verde com a caneta. — Os seguranças, o estacionamento, o vinho, aquela pilha de provas com elástico, era tudo o M.E.D.O. trabalhando. Sabe de que parte os testadores mais gostam? Daquela em que eles acham que saíram da simulação.
Alice tentou se sentar e o laboratório girou.
— E a certificação?
— Já está assinada desde a semana passada — ele disse, e riu de novo. — Eu nunca precisei do seu laudo, Alice. Precisava de você nessa poltrona. Você sabe cada detalhe de como a simulação é criada, passou os últimos dois anos ensinando alunos sobre como enganar o nosso cérebro, fazendo-o acreditar em ilusões. Se o produto encontrasse o seu medo, eu saberia que poderia encontrar o de qualquer um.
Virou o tablet para ela. Uma linha vermelha subia até cento e setenta e quatro batimentos cardíacos e permanecia naquela faixa, oscilando.
— Essa imagem vai abrir a apresentação para os investidores — disse mais uma vez rindo.
— Elas são conscientes! — A voz saiu mais alta do que ela tinha intenção. — Eu vi. Elas sangravam, sabiam o meu nome, uma delas me mordeu e eu fechei a porta na mão dela, eu ouvi os ossos quebrando. Perguntei para JANUS e ele me disse que não tem como distinguir a consciência de uma delas da minha. O seu próprio sistema disse isso.
O diretor esperou que ela terminasse e guardou o tablet debaixo do braço.
— Você também sangrou, Alice. E está aqui, inteira, reclamando comigo.
— Eu nunca mais ponho a cabeça nessa plataforma. Vou escrever para a agência reguladora, para os jornais, para todo mundo…
— Pode escrever. — Ele se levantou da cadeira e ajeitou a calça. — Isso só vai impulsionar as vendas. Nem precisa voltar, Alice. A gente já tem o suficiente de você. Obrigado.
Desta vez ninguém a acompanhou até a saída. Ela desceu pelo elevador social, atravessou o saguão vazio e saiu pela porta da frente. No estacionamento, fazia frio. Ela pôs a mão no bolso do casaco, e pegou o celular. Chamou um táxi, e esperou de pé na calçada até os faróis aparecerem na esquina.
***
Lúcia acordou atrasada de novo. Alice ouviu a porta do banheiro bater, o chuveiro, o secador, e só então começou a passar o café. A filha desceu com o uniforme amassado e o cabelo ainda úmido. Comeu meia torrada de pé mesmo, e saiu com a outra metade entre os dentes reclamando de algo sobre a prova de química.
O marido saiu logo em seguida, com a marmita numa sacola térmica e a chave do carro na outra mão enquanto procurava os óculos pela sala. Beijou a testa dela na passagem, enquanto ela bebericava o café.
A casa ficou com aquele silêncio de que Alice aprendera a gostar, mas preferia preenchê-lo deixando a TV ligada em segundo plano. Já não dava aulas. Deixara a universidade pouco depois do casamento e trabalhava em casa, revisando artigos para uma revista de neurociências.
Reconheceu a vinheta que passava na TV mesmo sem olhar. Ainda era julho, mas a Lumon já anunciava uma nova edição do M.E.D.O. e Alice sentia um desconforto só de ouvir aquilo.
Subiu ao banheiro para escovar os dentes, e reparou que o cabelo das têmporas já estava quase todo branco. Passou o polegar pela cicatriz do queixo, um hábito que tinha desde a tarde em que ensinara Lúcia a andar de bicicleta e as duas caíram juntas na calçada. Lúcia tinha seis anos. Chorou mais pelo sangue da mãe do que pelo próprio joelho ralado.
Desceu novamente para a cozinha. Hoje era dia de coleta de lixo. Alice amarrou o saco da cozinha, juntou com o da área de serviço e atravessou o quintal de chinelo até o portão.
O caminhão vinha descendo a rua. Dava para ouvir o compressor e os coletores gritando de casa em casa. Ela deixou os sacos na lixeira de ferro e, quando se virou para entrar, percebeu que o poste em frente ao portão de sua casa estava aceso. Eram oito da manhã, e a lâmpada piscava num ritmo irregular.
Alice olhou para o fim da rua. A casa da esquina já não estava lá. No lugar dela havia um cinza liso, sem textura, como o fundo de uma foto que ainda não terminou de carregar. A casa ao lado ia sumindo também, primeiro o muro, depois as janelas, depois o telhado, e o caminhão seguia no mesmo passo, parando diante de cada portão.
Alice correu para dentro. A cozinha cheirava a cera de piso, mesmo o chão da casa inteira sendo revestido por porcelanato. Na porta da geladeira, o desenho que Lúcia fizera no primeiro ano, uma família de mãos dadas debaixo de um sol amarelo, tinha perdido as cores e ia perdendo os traços, começando pela menina. Ligou para o marido. O telefone chamou uma vez e depois ficou mudo, sem chiado nenhum. Ligou para a filha e ouviu a mesma coisa.
Sentou-se no chão da cozinha. Uma lágrima se formou em seus olhos e desapareceu antes de encontrar o chão. Mas o sentimento era real. Pensou no agendador da coleta de lixo que ela tinha escrito muito tempo atrás para um software. Pensou nos anos passados, na prova de química, no branco das têmporas, na cicatriz que a incomodara tanto desde o dia em que a ganhara, relembrando-a de uma noite de terror que tentava ignorar. Fez a conta e nem precisou terminar. Sabia o resultado de cor, com dias, horas e minutos, desde a noite em que uma mulher com o rosto dela o dissera sentada numa cama.
Ninguém precisara arrancá-la de lugar nenhum. Bastava deixá-la rodando, com uma casa e uma família montadas de memórias e de restos de cache, enquanto o processo esperava a coleta. Lúcia. Ela mesma tinha dito aquele nome num corredor, com a boca cheia de sangue, quando precisava de uma palavra aleatória que não significasse nada.
O caminhão parou em frente ao portão dela. Ela ouviu o barulho do compressor, e notou que a janela da área de serviço tinha ficado cinza. Alice se levantou do chão, foi até o interruptor da cozinha e disparou a apertar. Tinha passado a vida vendo lâmpadas piscarem sem saber ler o que diziam. Agora ela sabia escrever. Iniciou pelo nome da filha, o cheiro do café passado às pressas, a cicatriz, sobre a mentira real que a fizeram viver por todo aquele tempo. Foi apertando cada vez mais rápido, sem se importar se a frase fazia sentido, até o interruptor sumir debaixo do dedo.
Num corredor de papel de parede verde, uma lâmpada começou a piscar.