O Último Paciente
Conto de Terror Psicológico
Aron Hussid Ferreira
6/20/20266 min ler


O Último Paciente
O sol morria devagar sobre os telhados de cerâmica quando o doutor Renato Sampaio estacionou o carro na Rua das Paineiras. Eram quase seis da tarde, seu último atendimento do dia. Era sempre assim desde que passara a fazer visitas domiciliares às quintas-feiras. Aos seus colegas, dizia que era uma concessão à compaixão. Nas noites de insônia, admitia a si mesmo que era uma fuga.
Desceu do carro e consultou o endereço no celular, embora já soubesse de cor. Cinco anos de acompanhamento criam uma memória própria. O portão de ferro estava entreaberto, as dobradiças já enferrujadas. Atrás dele, uma casa antiga, de dois andares, com janelas altas e persianas desbotadas. Tinha aquele ar de lugar que guarda coisas em excesso. Renato parou um instante antes de empurrar o portão.
Já estive aqui antes. Não era a memória clínica de mais de cinquenta consultas, mas era outra coisa… uma familiaridade que vinha de dentro, quente e desconfortável como uma febre.
Sacudiu a cabeça. Devia ser o cansaço, provavelmente.
Ela o aguardava na soleira da porta. Mariana Ferraz, quarenta e três anos, viúva há cinco. Tinha cabelos escuros presos na nuca, usava uma blusa de linho branco, e o olhar... Era isso que Renato notou antes de qualquer saudação. Tinha o olhar de quem olha sem ver. Seus olhos pousavam sobre ele como se mirassem um ponto dois metros atrás de seu rosto.
— Doutor Renato — disse ela. Sua voz era suave, como quem fala para não acordar ninguém.
— Boa tarde, Mariana.
A sala de estar cheirava a madeira velha e folhas secas. Renato sentou-se no mesmo sofá de sempre, defronte à janela que dava para o jardim abandonado. Mariana desapareceu na cozinha sem perguntar, e voltou com uma xícara de café. Ele aceitou com um breve aceno.
— Como a senhora tem se sentido desde a nossa última consulta? — perguntou, já com o bloco de notas no colo.
Ela entrelaçou os dedos sobre o joelho.
— Diferente — disse, depois de uma pausa longa demais.
— Diferente como?
— Como quem se lembra de algo que preferia ter esquecido.
Renato fez uma anotação.
— Isso é comum, Mariana. O luto não é linear. Há períodos em que a mente decide revisitar a dor, especialmente após datas significativas. O aniversário de falecimento do seu marido foi semana passada, não foi?
Ela não respondeu. Apenas olhou para a xícara dele. Não para o seu rosto, para a xícara. Com uma expressão que ele não soube classificar.
Renato bebeu o café.
A tontura veio aos poucos, como uma maré avançando sobre a orla. Primeiro a sensação de que a sala estava levemente inclinada, depois a boca pastosa, a língua pesada, os pensamentos escorregando entre os dedos antes que pudesse segurá-los.
— Com licença — disse ele, e a própria voz soou distante. — Preciso usar o banheiro.
Mariana apenas acenou com a cabeça.
No corredor, Renato apoiou a mão na parede. As flores do papel de parede pulsavam suavemente. Não é real, disse a parte ainda lúcida do seu cérebro.
O banheiro era pequeno, com azulejos brancos amarelados pelo tempo. Ele abriu a torneira no máximo e mergulhou o rosto na água fria. No espelho, encarou seus olhos vermelhos, o maxilar tensionado e a palidez de quem reconhece o perigo. Percebeu seu reflexo levemente angulado. O armário de remédios estava entreaberto.
Renato o abriu completamente.
Haloperidol. Dois frascos. Um quase vazio.
Ele segurou o frasco. É um antipsicótico de primeira geração, potente, de ação rápida, capaz de causar sedação, boca seca, confusão. Exatamente o que sentia. Ela colocou no café. A certeza caiu sobre ele com o peso de uma laje.
Ele respirou fundo. Precisava sair dali. Mas antes, precisava confrontá-la.
A sala estava vazia.
— Mariana?
O silêncio respondeu. A xícara ainda estava sobre a mesa.
— Mariana, preciso falar com a senhora.
Nada. A noite havia caído sem que ele percebesse. A janela agora era um retângulo escuro, e as únicas luzes eram a do corredor e o abajur amarelado da sala. Renato ficou parado por um momento, travado entre o impulso de ir embora e a necessidade de entender. Como médico, nunca conseguira tolerar os enigmas que ficavam em aberto.
Foi para o corredor. Depois para a cozinha. Vazia. Entrou no pequeno escritório. Nada. Chamou outra vez, e o nome dela ecoou pela casa como uma pedra jogada num poço fundo.
Então ouviu passos, vindos de cima. Lentos, irregulares, alguém que caminha sem saber onde quer chegar.
A escada rangia em cada degrau, anunciando sua subida ao andar de cima. Mas ele seguiu mesmo assim. No corredor do segundo andar, três portas fechadas e a escuridão total.
Deu um passo em frente e algo o parou no meio do movimento.
Um choro de bebê. Vindo do primeiro quarto à esquerda.
Renato empurrou a porta devagar. Era um quarto de criança. Um berço de madeira pintada de branco, com um móbile de estrelas sobre ele, imóvel. Na parede, uma cômoda com gavetas entreabertas. Tudo coberto por uma camada fina de poeira. O choro havia parado. Não havia ninguém.
Ele olhou para o berço vazio por um tempo que pareceu se estender demais, e então um grito rasgou o silêncio. Era agudo, breve, sufocado. Pareceu transfixar sua alma. Vinha do quarto ao fundo do corredor.
Renato correu.
O quarto do casal cheirava a tempo parado. Ele acendeu o interruptor, mas a luz não veio. A única iluminação era a fresta dourada embaixo da porta do banheiro. Na mesa de cabeceira, um porta-retrato. Renato o pegou e inclinou em direção à luz fraca.
Mariana, mais jovem, sorrindo. Nos braços, um bebê recém-nascido.
O coração dele disparou.
— Mariana — chamou, com a voz trêmula agora. — Mariana, eu sei que a senhora está aí.
Não houve resposta. Mas a angústia que crescia nele não precisava de palavras para se explicar. Era animal, primitiva, a certeza do corpo de que algo irreparável estava do outro lado daquela porta.
Ele foi lá.
Abriu.
O cheiro chegou antes da imagem. Ferrugem e uma doçura nauseante, o cheiro inconfundível de sangue velho. Renato prendeu a respiração e olhou.
Mariana estava na banheira. Deitada, com os braços abertos e os pulsos… também abertos. Filetes de sangue seco desciam pelos cotovelos, pelos antebraços, pelo corpinho que ela segurava contra o peito. O bebê estava roxo, pequeno, as finas marcas das mãos dela ainda ao redor do pescocinho delicado. Ambos imóveis. Ambos há muito imóveis.
Renato não sabia que estava gritando até ouvir a própria voz. Recuou, bateu as costas na parede, escorregou até o chão do corredor. Chorava sem entender quando havia começado. Não é real, não pode ser real, isso não está acontecendo, repetia como quem reza, como quem implora. Não existe preparo para isso. Não há formação acadêmica. Não há vivência alguma que torne alguém imune ao horror.
Voltou ao banheiro do andar inferior. Com mãos que não paravam de tremer, abriu o armário, tirou o haloperidol. Não o dela… O seu. O frasco com o seu nome na etiqueta. E engoliu a dose com água direto da torneira.
Esperou.
Subiu de volta ao quarto do casal. A banheira estava vazia, imaculada. O esmalte branco refletia a luz sem mancha nenhuma.
Renato se sentou na beira da cama por um tempo que não soube medir. Depois deitou-se de lado, com roupa e sapatos, e ficou olhando para o teto até que os olhos pesaram. Antes de fechá-los, virou a cabeça para a mesa de cabeceira.
O porta-retrato estava lá.
Mas a fotografia era outra.
Era ele. Mais jovem, o cabelo ainda sem as entradas de hoje. Ao lado, uma mulher que ele amava. E nos braços dela, um bebê que tinha os seus olhos.
Minha esposa. Meu filho.
Renato fechou os olhos.
— Me perdoem — sussurrou para o quarto escuro, para a casa silenciosa, para os dois que não podiam mais ouvi-lo. — Eu deveria ter chegado antes… Eu deveria ter percebido.
O sono veio como uma misericórdia.
Amanhã ele acordaria, iria ao consultório. Abriria o prontuário de Mariana Ferraz e leria as notas que ele mesmo havia escrito. Veria a certidão anexada. Veria o relatório do IML.
Cinco anos…
E então fecharia a pasta, colocaria de volta na gaveta trancada, e atenderia o próximo paciente.
Porque a ilusão tem bordas que se pode tocar, cheiros que se pode nomear, dores que se pode medicar.
A realidade, não.
A realidade é uma banheira branca, e duas ausências que nenhum antipsicótico do mundo consegue apagar.