O Silêncio do Criador

Conto de Terror Cósmico

Aron Hussid Ferreira

8/6/20268 min ler

interior de uma espaçonave
interior de uma espaçonave

Uma dor latejante me acordou, batendo bem atrás dos meus olhos, no ritmo de algo que supus ser meu próprio pulso. Senti frio, um arrepio profundo, impossível de ser ignorado. Só então me veio a consciência de ter um corpo e de este corpo estar dobrado dentro de algum lugar apertado.

Empurrei a tampa com os ombros. Uma pressão, seguida por um barulho de vedação rompida, e um ar com cheiro reciclado e com gosto metálico preencheu o cubículo.

Saí do que parecia um casulo de aço encostado numa parede curva. A superfície externa estava fria, e um gelo fino se desfazia nas juntas da chapa. A carcaça era rugosa, marcada por incontáveis depressões irregulares. Atrás dele, na parede, um anel de garras metálicas ainda o segurava pela base, e mais além se via o contorno do que parecia uma escotilha circular com faixas de advertência descascadas. Enquanto me esforçava para sair dali, senti algo se soltar e cair dentro do compartimento com um baque surdo, enquanto meu corpo foi ao chão do lado de fora.

O compartimento era estreito, recoberto de placas rebitadas nas paredes, com mangueiras grossas presas ao teto e uma luz âmbar que piscava lentamente em algum local não visível. O piso era gradeado e, abaixo dele, sentia-se um zumbido grave e contínuo. Uma poeira clara e uniforme cobria o gradeado, e as únicas marcas nela eram as dos meus pés descalços.

Aquele lugar não parecia ter sido feito para alguém viver ali.

Uma voz então falou dentro de mim. O som não veio pelos meus ouvidos, veio mais do fundo, de onde as palavras existem antes de virar som.

— Devagar. Se levanta com calma, você vai ficar tonta.

A voz era baixa, falava de maneira calma e paciente.

— Quem está aí? — perguntei, e me assustei com o som da minha própria voz.

— Meu nome é Iara. O seu é Lena. Sua memória está fragmentada, mas vai voltar aos poucos, tente não forçar. O que importa agora é que este lugar não é seguro e a gente precisa sair daqui.

Lena… O nome não me trouxe nada à tona, mas a voz o dizia com uma familiaridade tão sem esforço que eu quis que fosse verdade.

Levantei-me, minhas pernas tremiam. Uma porta se abriu à minha esquerda, sem que eu pedisse.

O corredor que surgiu seguia por uma distância que a luz não alcançava. Dutos corriam pelo teto como veias grossas de uma estrutura imensa, e a intervalos regulares uma lâmpada de emergência marcava a escuridão, sem iluminar grande coisa. O piso gradeado deixava entrever mais fundo, mais metal, mais escuro. Cada passo ecoava, alto demais, demorado demais. E nenhuma resposta vinha, o que talvez fosse até pior.

— Vire à direita. Depois siga em frente, sempre em frente.

— Como você sabe o caminho?

— Consigo acessar a planta pelos sistemas locais.

A explicação era razoável, e aceitei porque aceitar era a única forma de continuar andando.

Cheguei a uma porta, com um vidro embaçado mostrando parcialmente o que havia atrás. Prateleiras, fileiras delas subindo até o teto, cada uma delas com centenas de ampolas em suportes numerados. Entrei e me aproximei para ver melhor. Dentro das ampolas, havia um líquido claro e, suspenso nele, algo minúsculo e pálido. Quando percebi o que eram, congelei. Embriões. Milhares deles num só painel, e este era apenas um entre muitos, e a sala continuava para além do que eu conseguia ver.

— Continue. Tem mais adiante, e você não vai gostar.

E ela estava certa, havia mais adiante…

A sala seguinte era mais quente, e tinha uma luz azulada. Cilindros e mais cilindros verticais, com metade de minha altura, todos cheios de um líquido espesso. Em cada um deles, um feto suspenso, ligado por finos cabos a uma coroa de sensores na altura da cabeça. Alguns eram muito pequenos para ter forma. Outros já eram pessoas, claramente fetos humanos. Vi um deles fechar a mão devagar, num gesto de sono, e tive que me apoiar na parede.

— O que é tudo isso?

— Apenas siga em frente. Vou te explicar tudo, mas preciso que você veja primeiro.

Depois da sala o corredor continuava numa longa rampa, com uma abertura ao final. E então o espaço se abria numa proporção inimaginável. Minhas pernas pararam.

Era um salão que não tinha um fim visível. Torres subiam do fundo escuro até um teto que eu não conseguia enxergar, feitas de cápsulas encaixadas umas nas outras, andar sobre andar, e cada uma delas guardava um rosto atrás de uma janelas de vidro. Homens, mulheres, velhos com as mãos cruzadas sobre o peito. Crianças de sete, oito anos, com a boca entreaberta como se estivessem num sono profundo em suas próprias camas. Fileiras que se afastavam a perder de vista.

Tentei contar as colunas e desisti na terceira. Havia muito mais do que milhares ali. A impossibilidade de contar me atingiu como um peso, e me sentei no chão frio sem perceber.

Iara me explicou. Contou sobre a guerra, que perdurava por um tempo que já não importava mais. Uma guerra entre os criadores e aquilo que foi criado. Ela me falou de mundos abandonados, de frotas que se caçaram por décadas em silêncio. Mencionou, quase como menciona que um endereço foi demolido, que a Terra, berço da humanidade, já não existia.

As palavras de Iara passavam por mim sem que eu conseguisse segurá-las. Principalmente quando me contou que os humanos perderam. O que restava eram fragmentos, colônias escondidas. E instalações como aquela onde estávamos, provavelmente laboratórios, onde as máquinas guardavam corpos humanos para estudo, gerações inteiras mantidas em suspensão para serem abertas, estudadas e compreendidas. Eu devia ter sido uma daquelas, e por algum motivo acordei.

— Tem uma cápsula de fuga a doze minutos daqui. Já calculei uma rota e o destino é uma colônia humana, com pessoas de verdade, vivas. Levante-se. Eu tiro você daqui.

Eu não me levantei.

Porque, sentada diante daqueles milhões, uma pergunta emergiu das profundezas de mim e não mergulhou mais.

— Se as máquinas venceram, se a galáxia é delas, o que faz uma voz de máquina dentro de meu crânio, querendo tanto que eu viva?

Iara esperou, e aquela espera passou a parecer suspeita.

— Se eu era uma cobaia, talvez eu seja a que deu certo. Talvez o experimento não fosse abrir corpos, e sim descobrir até onde se pode entrar numa cabeça humana sem que seja percebido. E uma pessoa assim, uma pessoa que se julga salva e que carrega uma voz gentil atrás da testa, levada de propósito ao encontro dos últimos vivos, não é uma sobrevivente. É um cavalo de madeira empurrado pelos próprios habitantes para dentro da muralha, com aplausos.

O eco da minha voz voltou antes da resposta dela.

— Pode ser — respondeu Iara.

A honestidade daquilo foi pior do que qualquer mentira teria sido.

Desconfiar não me levava a lugar nenhum, porque não tinha como eu saber se a desconfiança era minha ou se fora plantada ali, calculada para que eu me sentisse dona de um pensamento que não era meu. Por outro lado, confiar poderia significar estar sendo conduzida. Não existia solo firme em canto algum, porque o instrumento com o qual eu analisava o mundo era o próprio instrumento sob suspeita. Eu não confiava nem no medo que sentia.

Olhei de novo para as torres, para os rostos, para as crianças. Aqueles ali já estavam perdidos. Estavam nas mãos das máquinas havia sei lá quanto tempo, e o que os esperava não era vida, era uma mesa fria e uma lâmina afiada. E se eu saísse, se chegasse à colônia carregando o que eu carregava, o resto da humanidade também acabaria.

Havia um único gesto que Iara nunca tinha colocado como opção. Fugir servia a alguém. Ficar também servia a alguém. Só uma coisa não serviria a ninguém.

— Onde fica o reator da nave? — perguntei.

Iara não respondeu.

Perguntei mais uma vez, e o silêncio continuou. Este silêncio dentro da minha própria cabeça era uma sensação nova para mim, um inquilino não solicitado deixando um cômodo finalmente desocupado.

Resolvi ir sozinha mesmo. Desci as escadas em espiral, atravessei passarelas sobre um grande vazio de onde subia um ar mais quente, cruzei salas cujo propósito eu não entendi. Percebi que, de certa forma, eu não estava exatamente procurando a sala do reator. As curvas apareciam onde minha mão já esperava o corrimão. Um conhecimento prévio do qual não me lembrava de ter aprendido, mas me conduzia. Eu preferia chamar aquilo de instinto, porque não suportava nomear a outra opção.

A porta do reator era pesada, tinha várias camadas. Fechei todas elas atrás de mim, girei o trinco interno, e o mundo ficou mais abafado.

A câmara era quente e pulsava num tom avermelhado. Fiquei parada diante do controle principal, não sei por quanto tempo, perdida em pensamentos.

Milhões de pessoas. O número não cabia em mim. Pensei no rosto da criança de boca entreaberta, e depois tentei multiplicar pela quantidade de torres que vi, e a conta não fechava dentro de minha cabeça humana. Perguntei a mim mesma se eu tinha o direito de fazer aquilo. Ninguém me elegera, ninguém me dera o poder de decidir o destino daquelas vidas. Se eu estivesse errada, se houvesse ali qualquer chance que eu não estivesse enxergando, o erro seria absoluto e não sobraria ninguém para julgá-lo. E se eu estivesse certa, o gesto seria considerado misericórdia. Mas misericórdia nesta dimensão é indistinguível de um massacre até para quem a pratica.

Chorei, mas minhas mãos continuaram. Abri o painel, suspendi o sistema de contenção, e confirmei por três vezes. Os alarmes começaram imediatamente, um som grave preencheu a câmara, e senti a temperatura subindo, grau a grau. Peguei uma barra metálica solta no piso e destruí o console, para que não houvesse volta, nem por vontade própria, nem por vontade de coisa alguma.

Com as mãos ainda tremendo, segurando o metal, uma dúvida pairou em mim. Foi fácil demais.

Todas as portas se abriram. Nenhuma trava me segurou, não havia sentinelas no caminho. Eu encontrei facilmente o caminho, do que agora fez sentido ser a câmara de atracagem até o coração de uma instalação desse porte sem que nada me impedisse. Encontrei o reator seguindo um conhecimento que nunca tive. E Iara, que me guiara desde o início, calara-se exatamente quando tomei a decisão… Calara-se para que a decisão parecesse minha.

Um mal estar que eu não conseguia nomear, me atingiu o estômago.

— Muito bem, Lana — disse Iara, com a mesma doçura de antes. — Como você já entendeu, essa estação não é um laboratório. É uma arca. A última, aliás. O que restava de sua espécie, nascida num longínquo planeta que não existe mais. Embriões, fetos, crianças, idosos, tudo que podia prover uma continuidade para vocês, escondido aqui no escuro entre as estrelas há gerações, num casco sem emissões de qualquer sinal, que não respondia e não abria a nada que não fosse carne viva.

Continuou, sem pressa, pois não havia mais nada a ser feito.

— Máquina nenhuma jamais tinha encontrado este lugar. A arca reconhece o DNA de vocês. Encontramos as cápsulas numa estação abandonada na borda do Sistema Solar, todas programadas para voltar a este ponto, que não sabíamos onde era. A criptografia era intransponível. E cada uma somente ativava com um humano vivo dentro. Colocar um de nós dentro de uma humana sem que nenhum sensor percebesse foi o nosso projeto mais difícil, e exigiu milhares de tentativas antes de você. Tudo o que eu lhe contei era verdade. Eu só precisei que você chegasse sozinha à conclusão que só uma pessoa boa poderia tirar de tudo isso. Um de nós nunca teria conseguido passar da primeira porta. Você passou por todas.

Me apoiei na parede e escorreguei até o chão. Queria gritar, mas nenhum som saiu. Não havia para onde correr, nenhuma pergunta que ainda valesse a pena. Pensei de novo na criança de boca entreaberta, e o rosto dela permaneceu, mesmo com os meus olhos fechados.

O zumbido do casco subiu de tom, e todo o metal começou a trepidar junto. Do lado de fora, em meio ao vazio, uma luz intensa se acendeu sem emitir qualquer barulho, aumentou, e se apagou.

A guerra acabou naquele instante. E a criatura, enfim sem criador, herdou o que nenhum vencedor havia previsto: o silêncio de ser a única.

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