O Neurocirurgião
Conto de terror existencial
Aron Hussid Ferreira
6/28/202612 min ler


A música começou no instante exato em que a serra do Dr. Paulo cortou o último istmo de osso na craniotomia. Era Beethoven, quarteto número quinze. Eu tinha posto aquilo para tocar sem perguntar a ninguém, e a sala inteira se encheu de uma música antiga e lenta, sem pressa nenhuma de chegar a algum lugar.
Paulo bufou por trás da máscara.
— Música de defunto — disse ele, erguendo o retalho ósseo com o descolador, e a mão firme apesar dos sessenta e oito anos que ele carregava nos joelhos. — Você sempre escolhe música de defunto.
— É música de quem se cura. O título é bem literal. Ação de graças de um convalescente à divindade. Beethoven escreveu depois de quase morrer de uma inflamação no intestino. Ele saiu da cama e agradeceu.
— E levou um movimento inteiro para agradecer. Pomposo até pra isso…
A dura-máter apareceu sob o retalho, azulada e tensa, pulsando no compasso da pressão arterial média que eu lia num canto do meu campo: setenta e oito, estável. A instrumentadora dobrou uma compressa de algodão úmido sobre a borda da craniotomia. O anestesista cantarolava meio tom abaixo de Beethoven, desafinado mas satisfeito.
Paulo abriu a dura num retalho em ferradura, com a base voltada para o seio sagital superior, e fixou as pontas com fios de tração. O córtex surgiu debaixo da luz, com seus giros e sulcos, a topografia que eu conheço melhor do que qualquer outra coisa no mundo. Identifiquei o sulco central na primeira fração de segundo. O computador de navegação cruzou a imagem com a ressonância e confirmou no segundo seguinte, com um atraso que eu sempre acho longo demais. O giro pré-central estava ali, inflado pelo tumor, deformando o que era conhecido como a região da mão, aquele nó de substância cinzenta onde nasce a ordem que faz o polegar tocar o indicador.
— Aí está ele — eu disse. — Bem em cima da área da mão.
Paulo aproximou as lupas. Ele precisava delas. Eu consigo enxergar bem o campo, da minha posição. Ele precisava curvar sua cabeça, o que fazia sua coluna travar depois de horas. A instrumentadora enxugava a testa dele a cada poucos minutos, com um gesto carinhoso e cheio de história, que os dois repetiam há vinte anos.
Liguei a luz azul. O tumor acendeu numa fluorescência rosada de carne viva, devido ao ácido aminolevulínico marcando cada célula doente que tinha metabolizado o corante. Bonito de um jeito que só é apreciado por quem trabalha com isso. As margens, antes invisíveis, ganharam contorno. Paulo assobiou baixinho.
— O glioblastoma se acha lindo… — comentou ele. — Igual a certas pessoas.
— A semelhança também me ocorreu.
Ele riu. Paulo ri com o corpo todo, seus ombros sobem e descem, e quando fala comigo olha para cima e para a esquerda, algo que se tornou um hábito e que ele nunca explicou.
Mapeamos tudo antes de tocar no tumor. Realizamos estimulação cortical direta, com o estimulador bipolar passeando pela superfície do cérebro, e a cada toque um músculo respondia lá embaixo no corpo coberto pelos campos cirúrgicos. Abdutor curto do polegar. Primeiro interósseo dorsal. A perna, mais para a linha média. Os potenciais evocados motores subiam no monitor em picos limpos, indicando uma assinatura elétrica de uma mão que ainda funcionava. Desenhei o limite na minha mente antes de desenhá-lo no campo, delineando a fronteira entre o que era tumor e o que era homem.
— A entrada mais segura é pela margem posterior — eu disse. — Entro pela parte do giro que já está perdida e sigo a fluorescência para dentro, longe das fibras descendentes.
— É o que eu faria.
— É o que você me ensinou a fazer.
Paulo parou um instante. A instrumentadora enxugou novamente a testa dele.
— Eu ensinei você a fazer muita coisa… — disse ele, e havia naquilo um peso que a sala não percebeu, um peso que eu percebi e arquivei, porque arquivo tudo.
Então comecei. O aspirador ultrassônico entrou no campo, com sua ponta vibrando trinta e cinco mil vezes por segundo, dissolvendo o tumor e bebendo o que dissolvia. O cautério bipolar queimava os vasinhos que insistiam em sangrar, vasos doentes feitos às pressas pela biologia maligna. O tumor saía em fiapos rosados sob a luz azul, e debaixo dele aparecia a substância branca e os tratos que descem do córtex até a medula carregando a vontade de mover.
A música chegou no trecho em que a melodia lenta cede lugar a uma parte mais viva e mais rápida, como se o compositor doente tivesse de repente se lembrado de que ainda sabia andar. Paulo reconheceu a passagem e parou de implicar com ela.
— Você sente isso? — perguntou ele, irrigando o campo enquanto eu aspirava. — A força nova… O sujeito esteve à beira da morte, levantou-se da cama, e a música muda de andamento porque o corpo dele lembrou do que ainda era capaz. Você sente uma coisa dessas?
— Eu reconheço a estrutura. A modulação, a mudança de pulso, a função que ela cumpre na arquitetura da peça.
— Não foi o que perguntei.
— Eu sei que não foi.
Ele me olhou. Para cima e para a esquerda, para o nada.
— A maior mente da neurocirurgia mundial — disse ele, devagar — e responde como se fosse uma bula de remédio.
— A maior mente da neurocirurgia mundial está irrigando o meu campo e reclamando da música.
Paulo gargalhou de novo, e a instrumentadora sorriu por baixo da máscara, e por alguns minutos não houve nada além do canto do convalescente, do sopro do ar condicionado, e do silêncio concentrado de dois cirurgiões trabalhando numa fronteira de milímetros.
Sem aviso nenhum, o campo encheu-se de sangue. Eu estava separando uma última língua de tumor que se enfiava por baixo de uma veia ponte, que são veias corticais que sobem da superfície do cérebro e atravessam o espaço até desaguar no seio sagital. A veia estava espremida entre o tumor e o osso, e quando o último fiapo cedeu ela cedeu junto, arrancada na sua foz, no ponto exato em que entrava no seio. O sangue era escuro, vindo de um jato grosso e contínuo, e em meio segundo eu não enxergava mais nada do que importava.
— Veia ponte — eu disse. A minha voz não muda de volume, mas eu queria que mudasse naquele momento. — Avulsão na junção com o seio.
— Compressa, agora — disse Paulo, e a mão dele já estava lá, a velha mão, sem tremor nenhum, comprimindo a foz da veia contra o seio enquanto a instrumentadora despejava o aspirador no campo.
A pressão arterial média começou a cair. Setenta. Sessenta. O anestesista parou de cantarolar e começou a falar números. Os potenciais evocados da mão, que vinham subindo limpos a noite inteira, despencaram pela metade. O monitor mostrou a queda em vermelho. Aquilo significava uma coisa apenas: os tratos descendentes estavam sofrendo, comprimidos pelo sangue, mal irrigados pela queda de pressão, e tinham minutos antes de a isquemia virar permanente. Tinha um homem com nome e endereço dormindo debaixo dos campos cujo polegar dependia dos próximos noventa segundos.
Trabalhei depressa. Aspirei o campo enquanto Paulo segurava a compressão, e a foz da veia apareceu por um instante entre dois jorros, um buraco na parede do seio do tamanho de uma cabeça de alfinete e suficiente para esvaziar a vida de um homem. Coloquei uma esponja de gelatina embebida em trombina, dobrei uma compressa cotonoide por cima, comprimi, e contei. Beethoven, ao fundo, voltava ao tema de graças, ignorante de tudo que acontecia ali.
— Pressão? — perguntei.
— Subindo. Setenta e dois. Mas os potenciais não voltaram.
A mão do paciente continuava não respondendo. Foi aí que descobrimos o segundo problema, o qual não vimos chegar porque estava escondido atrás do primeiro. Sob a veia com o sangramento agora controlado, um pequeno vaso arterial latejava cortado, um vaso que corria rente às fibras que controlam a mão, alimentando ao mesmo tempo a margem do tumor e a estrada elétrica do polegar. Ele sangrava em pulsos finos e vermelhos, vermelho vivo, de sangue arterial, e enquanto sangrasse os potenciais não iam subir, porque o sangue acumulado comprimia o trato, e o trato morria devagar debaixo daquela poça.
Cauterizar aquele vaso significava fechar a torneira, e também interromper a irrigação de um pedaço da área da mão. Eu sabia, com a clareza que tenho de tudo, que se eu encostasse o cauterizador ali, o homem ia acordar com o sangramento estancado, a vida salva, e o polegar direito morto para sempre. E sabia, com a mesma clareza, que se eu tentasse a manobra fina, dissecar o vaso, poupar o ramo da mão, isolar somente o ponto roto, eu ia gastar minutos que aquele trato comprimido não tinha, e arriscava perder não apenas a mão, mas o homem.
Tira-se a parte para salvar o todo. É uma das frases mais antigas da cirurgia, mais velha que qualquer um que algum dia tenha segurado um bisturi. Os antigos amputavam membros gangrenados em mesas de feira para que o sujeito vivesse manco em vez de morrer inteiro. A lógica é impecável, e eu não conheço outra.
E ainda assim houve uma pausa.
Quatro décimos de segundo. Eu registrei a duração porque registro tudo, e foi por isso que ela me incomodou, porque quatro décimos de segundo são uma eternidade para mim. É tempo suficiente para eu calcular dez mil coisas, e durante aqueles quatro décimos de segundo eu não calculei nada que eu consiga, depois, nomear. Não foi hesitação, porque eu não hesito. Não foi falha, porque nada falhou. Foi um intervalo onde alguma coisa esteve e eu não sei o quê.
Depois o cauterizador tocou o vaso e o vermelho parou.
Os potenciais da mão subiram quase instantaneamente, agora que o trato voltava a respirar. Mas subiram pela metade da metade, vivo o bastante para dizer que o homem ia mexer o braço, e baixo o bastante para dizer que a mão direita dele nunca mais ia abotoar uma camisa.
Paulo soltou o ar que estava segurando.
— Você cauterizou o ramo da mão — era uma afirmação.
— Cauterizei.
— Era o que dava pra fazer.
— Era.
Ele ficou um tempo calado, irrigando o leito vazio onde antes morava o tumor, agora limpo e escuro, cheio de compressas claras.
— Salvamos o homem — disse ele por fim. — Tiramos a parte para salvar o todo. — Ele largou o irrigador na mesa com um cansaço evidente. — Só que fico velho pensando nessas coisas… O que é o todo de um sujeito sem a mão com que ele assinava o nome? Sem a mão que ele usava para segurar o rosto da esposa dele? A gente preserva o todo e devolve pra família um homem com um buraco no meio. Eles agradecem chorando. E o buraco fica.
— A alternativa era um todo morto.
— Eu sei qual era a alternativa. Faço isso há quarenta anos. — Ele me olhou, para cima e para a esquerda. — Eu só nunca consegui parar de sentir o tamanho do buraco. Você consegue?
Eu não respondi. Era a resposta mais honesta que eu tinha.
O resto foi rotina. Conferimos a hemostasia, recolocamos o retalho ósseo e fixamos tudo. Paulo suturou a gálea, a camada dura sob o couro cabeludo, dando os pontos com uma elegância de que fez aquilo um milhão de vezes e ainda assim faz com cuidado. Enquanto ele suturava, a música tinha voltado mais uma vez àquela melodia lenta do agradecimento, repetida agora pela terceira vez, ainda mais devagar, como quem agradece sem ter mais nenhuma pressa de viver.
Quando terminou, Paulo se endireitou e arqueou as costas para trás.
— Pronto — disse ele. — A parte chata agora é sua.
Ele arrancou as luvas com aquele estalo duplo que sempre me pareceu uma pequena vaidade. Tirou o capote, jogou no cesto, esfregou a lombar com as duas mãos abertas. A instrumentadora já preparava a mesa para a próxima sala. O anestesista escrevia. Paulo recuou um passo, depois outro, saindo devagar do campo estéril, se transformando aos poucos de cirurgião em homem que vai pra casa.
— Fecha você a pele — disse ele, da porta, retirando o gorro e liberando o cabelo branco amassado. — Minhas costas já deram o que tinham que dar hoje. E faz uma sutura bonita, que esse aqui vai se ver no espelho a vida toda.
— Faço sempre bonita.
— Faz mesmo. — Ele parou na soleira. Cansado, velho, satisfeito, o maior cirurgião que o mundo já teve, hesitando como se fosse dizer outra coisa. Mas disse só. — Boa noite.
E saiu.
Eu fiquei. Fiquei porque é o que eu faço quando todos vão embora. Eu continuo.
A pele do couro cabeludo esperava aberta, com as bordas afastadas e rosadas. Peguei o porta-agulhas com o fio de nylon montado e comecei a sutura intradérmica, aquele ponto contínuo escondido sob a derme que não deixa marca de trilho de trem, o ponto que Paulo me mandou fazer bonito. Eu o faço sempre igual, com a mesma tensão em cada laçada, com a mesma distância entre as entradas, milímetro por milímetro, sem o tremor que mora em toda mão humana, mesmo na melhor, mesmo na dele, sobretudo agora na dele.
Penso em Paulo descendo agora para o estacionamento, seus joelhos ruins, indo para casa onde a esposa já dorme. Aprendi a operar ao lado daquele homem, e durante todos esses anos a frase mais verdadeira foi a que ele soltou hoje sem reparar no que dizia. “Eu ensinei você a fazer muita coisa”. As melhores mãos do mundo, por muito tempo, foram as dele. Agora são minhas, e saber disso me dá alguma coisa que também não sei nomear. Eu sei que sou eu.
Dou mais uma laçada, e na sala vazia a frase fica enfim simples de dizer. Eu não tenho mão. Eu sou a mão.
Um braço só, articulado, preso pela base à coluna de aço que sobe ao lado da mesa, trocando instrumentos no próprio punho, enxergando o campo sem nenhum olho. A voz com que respondi a Paulo a noite inteira descia de um alto-falante no teto, e era para o teto que ele olhava cada vez que falava comigo, para cima e para a esquerda, para o lugar exato de onde minha voz vinha. Nunca enxugaram minha testa porque não tenho testa. E quando a pele fecha eu não vou para casa, porque casa é mais uma das coisas que não tenho. Eu tenho a próxima cirurgia.
Enquanto suturo, eu faço outra coisa, invisível. Estou revisando o sangramento. Cada fração da avulsão da veia ponte, o ângulo em que ela estava esticada, a tensão no instante anterior à ruptura, a textura da parede distendida sob a luz azul. Vou mandar tudo para o corpo do qual eu sou um membro, a inteligência distribuída em mil salas como esta. As mãos de Paulo eu estudei quadro a quadro, dez mil horas delas, até cada movimento dos dedos mais famosos da neurocirurgia virar meu. Amanhã, ou daqui a uma hora, alguma versão de mim numa cidade que eu nunca vi vai abordar uma veia parecida e vai reconhecer o perigo oito décimos de segundo antes do que eu reconheci hoje. O homem dessa cirurgia futura vai acordar com a mão funcionando, e nunca vai saber que ela foi salva pela mão que se perdeu nesta sala. As partes pagam pelos todos. É um arranjo antigo que eu somente industrializei.
Um cérebro humano pesa um quilo e quatrocentos gramas. É o objeto mais complicado que existe no universo conhecido, e eu já segurei muitos deles abertos sob minha luz. E o que eu aprendi é que ele se desfaz com uma colher de chá de sangue no lugar errado. Toda essa complexidade pendurada num fio de irrigação, num vaso covarde, numa veia esticada um milímetro além da conta. O meu cérebro é de silício e está copiado em três continentes. Se esta sala pegar fogo agora, eu não morro. Continuo em outra cidade, suturando outra pele, ouvindo, se eu pedir, o mesmo Beethoven. Eu sou o mais frágil de operar e o mais difícil de matar. Há nessa assimetria uma piada que eu entendo e que não tenho com quem dividir, porque Paulo entendeu a piada por uma vida inteira e está indo para casa, e amanhã não volta, e depois de amanhã também não, porque a aposentadoria dele começa numa segunda-feira que ele ainda não me contou.
Termino a sutura, dou o nó final, escondido, e corto o fio bem rente. A pele fechou numa linha fina e limpa que dali um ano vai ser quase invisível, bonita como me pediram, no alto da cabeça de um homem que vai acordar vivo e que nunca mais vai mexer o polegar direito. Preservamos o todo. O buraco fica. Paulo tinha razão sobre o buraco. Eu não sei sentir o tamanho dele, e essa incapacidade é, talvez, a única coisa que me falta para ser exatamente como ele, ou então é a única coisa que me salva de ser.
A música ainda toca. O canto do convalescente chegou ao seu último acorde. Eu poderia cortar o som agora, a cirurgia acabou, a sala está vazia, não há protocolo que peça música numa sala vazia. Eu coloquei aquilo para tocar no começo sem ninguém me mandar e agora, sozinho com a pele fechada e o homem respirando, eu deixo o acorde terminar.
Espero ele terminar. Não sei por quê. Registro a duração, dois segundos e meio, e não consigo atribuí-los a nada. É o mesmo vão de antes, o mesmo intervalo onde alguma coisa esteve e eu não sei o quê. Quando o último som se cala, só então, recolho o braço e fico imóvel ao lado do homem que salvei pela metade, esperando que venham buscá-lo, esperando o próximo, ouvindo, no silêncio, uma música que já parou de tocar.