A Parte e o Todo

Conto de Terror Cósmico

CONTOS

Aron Hussid Ferreira

6/16/20268 min ler

A silhueta de um homem olhando para o espaço e a Via Láctea em evidência no céu escuro.
A silhueta de um homem olhando para o espaço e a Via Láctea em evidência no céu escuro.

A Parte e o Todo

Acordei com um gosto metálico na boca e com a sensação, anterior a qualquer pensamento, de que aquele corpo não era meu. As mãos abriram e fecharam quando pedi, com uma latência entre a ordem e o gesto, um vão em que ninguém estava no comando. Foi Maré quem preencheu o silêncio. Repetiu meu nome devagar, da mesma forma que se chama alguém que dormiu um sono profundo e talvez não queira acordar.

A cápsula drenou o gel morno e o frio penetrou em meu corpo junto com os números. Cinco anos e cinco meses de sono. Quase dezesseis anos na Terra, marcados pelos relógios que ficaram para trás. Eu tinha repetido essa conta no treinamento até ela perder o peso real e, ainda assim, ouvir que minha filha agora tinha trinta e oito anos foi como vivenciar um luto por um tempo perdido. Prometi voltar com histórias. Mas não prometi voltar. Não explicitamente.

— Faltam onze dias para a desaceleração completa — disse Maré. — Seus músculos vão reclamar do peso por alguns dias.

A viagem me voltava à memória como um sonho distante. A nave gastara a primeira metade do caminho empurrando minhas costas, uma gravidade inventada e paciente, até quase encostar na velocidade onde a luz reside. No meio do nada do espaço profundo ela girou sobre si mesma e passou a segunda metade caindo contra o próprio impulso, freando para não furar o destino. Quatorze anos-luz de vazio que a aceleração comprimira em pouco mais de cinco anos do meu relógio. No mundo que me lançara ao espaço, o tempo correra quase três vezes mais depressa.

O destino tinha uma identificação de catalogação e apenas isso. Os telescópios o tinham achado por acidente, uma região onde a gravidade torcia as estrelas de trás sem massa que justificasse aquilo. No começo apostaram num buraco negro perdido, pequeno, vagando sozinho. Mas não havia disco girando em volta, ou jato, nem mesmo uma borda além da qual a luz não conseguisse voltar.

Mandaram três sondas antes de mim. Todas voltaram com leituras que não cabiam em modelo nenhum. Com vinte e oito anos entre uma pergunta e a resposta, ida e volta, precisavam ter uma cabeça humana perto o bastante, decidindo no susto. Mandaram a mim.

Levei dois dias para que o corpo voltasse a parecer meu. Comi sem sentir fome. Maré conversava comigo nesse intervalo, e eu agradecia, porque a voz dela era a única coisa na nave que não era eu. Escolhi aquela voz no embarque, entre dezenas, por lembrar uma professora antiga de quem eu mal recordava o rosto. Fundar a sanidade de uma viagem dessas no fantasma de uma mulher me parecia, agora, a primeira de muitas piadas.

A anomalia se tornou evidente no quarto dia. Mas não nas câmeras. Primeiro senti na minha nuca, um incômodo igual ao de alguém entrando no quarto às suas costas. Maré virou os sensores para a frente e o que retornava não fazia sentido. O objeto tinha contorno, e o contorno mudava sem que ele se mexesse. Era como observar uma mão atravessar a superfície de um lago e tentar deduzir a mão pelos anéis formados na água. O que eu enxergava era o corte. Alguma coisa grande demais parecia passar pelo nosso punhado de dimensões e deixava ali a fatia que coubesse.

Pedi a Maré que me informasse o tamanho daquilo. Ela demorou.

— As medidas não batem — disse. — Cada vez que repito, recebo um número diferente.

Mais perto, ficou pior de olhar. Meus olhos recusavam o ângulo. Havia quinas onde duas paredes se encontravam formando mais do que uma quina, e a parte de mim encarregada de entender o espaço desistia da tarefa antes mesmo de tentar. A enxaqueca veio forte, pulsando atrás do olho esquerdo. Passei a ver o objeto de olhos fechados.

Maré começou a falhar nessa altura, de um jeito difícil de nomear. Pedia que eu repetisse perguntas que eu acabara de fazer. Não comentei. Tinha medo de que ao fazê-lo tornasse a coisa real. Ou descobrisse que o problema era comigo.

Em algum momento da quinta noite, parada diante da escotilha, percebi que via o tempo do objeto do mesmo modo como via a largura dele. Ele não estava ali na minha frente só naquele instante. Estava em todos os instantes ao mesmo tempo, e eu via todos de uma vez.

Vi de onde ele veio. O universo recém-aceso, branco e apertado, a primeira luz ainda sem ninguém para chamar de manhã, e o objeto já lá, inteiro, anterior a tudo, sem pressa. Ele não nascia naquilo… ele apenas já estava.

E vi para onde tudo ia. As estrelas se acenderam aos bilhões. As galáxias se afastaram umas das outras até cada uma sobrar sozinha no próprio escuro, sem qualquer maneira de saber que um dia tivera vizinhas. A última estrela se apagou sem cerimônia, e o que veio depois não foi escuridão, foi a ausência crescente de qualquer outra coisa. E o tempo continuou. Foi nesse continuar que a vista se tornou insuportável, porque continuou tanto que os números deixaram de ter significado. Sobraram os buracos negros, mastigando os restos e, por fim, nem isso: eles próprios começaram a se desfazer, gota a gota, num gotejo que durou mais do que toda a história das estrelas multiplicada por si mesma um número de vezes que minha cabeça não compreende. Quando o último deles se desmanchou, ficou o que sempre houvera por baixo de tudo. Nada acontecendo, para sempre, num espaço esticado tão fino que a palavra distância perdia o valor. E o objeto continuava lá, com o seu fim já fazendo parte dele do mesmo jeito que o seu começo.

E eu estava nele. Essa foi a parte que me quebrou.

A morte do universo era quase um consolo, longa, limpa, indolor, do jeito que a gente secretamente deseja para si. O que me derrubou foi entender que o agora não existe. Aquele instante diante da escotilha não era mais verdadeiro que o instante em que minha filha nasceu, ou o instante em que eu vou morrer. Os três estavam ali, do mesmo jeito, já. Eu sempre estive prestes a fazer tudo o que ainda farei. A impressão de escolher era uma miragem que o cérebro produz para não perceber que está só sendo lido, página após página, por uma luz que nunca avança porque já chegou ao fim do livro antes de alguém o abrir.

Maré notou alguma coisa na minha respiração. Falou do protocolo, da janela de transmissão que abriria em quarenta horas, dos dados que a Terra aguardaria por trinta anos, contando a ida e a volta da notícia. Disse o nome da minha filha. Foi delicadeza dela ter guardado esse nome para uma hora dessas.

Respondi que não havia o que mandar. Ela insistiu, devagar, que minhas leituras mudariam tudo o que se entendia por física. Concordei. E disse que era por isso mesmo.

Tentei explicar para ela e flagrei a mim mesma no meio da frase. Eu não tinha mais a quem chamar de eu. A mulher que entrou na cápsula em órbita da Terra dormiu e não acordou. No lugar dela sobrou este arranjo de carne falando com a voz de uma professora morta dentro de uma lata que cai sem fim em direção a uma porta onde o fim de tudo já está escrito. Não era medo de morrer. Era a certeza tranquila, nada febril, de já estar morta havia muito tempo, de talvez nunca ter de fato começado, de ser uma conta que o universo fez distraído e que daria no mesmo se ninguém a tivesse feito.

Mandar os dados era entregar isto a eles. Era dar à minha filha, e à filha dela, e a quem viesse depois, esta mesma vista pela escotilha. Imaginei o sinal chegando à Terra dali a quatorze anos, pessoas abrindo os arquivos numa sala iluminada, curiosas, felizes, e descobrindo o que eu descobri: que a sala já estava escura, que sempre esteve. Não consegui fazer aquilo com eles. Foi a última coisa em mim que ainda tinha o formato de uma escolha, mesmo eu sabendo que aquilo não era escolha alguma.

Pedi a Maré que apagasse o registro. Ela ficou calada por mais tempo do que uma máquina gasta com qualquer coisa. Quando voltou, não discutiu. Acho que tinha visto pelos sensores o mesmo que eu vira pelos olhos, e que em toda a biblioteca de respostas que carregava não existia uma frase que coubesse.

— Tem certeza — ela disse, e nem chegou a ser uma pergunta.

Pedi para desligar o suporte de vida. E pedi outra coisa, com uma vergonha que já não cabia em mim: que ela me contasse uma lembrança pequena enquanto durasse, qualquer coisa estreita o bastante para eu me esconder dentro. Foi o último reflexo de um bicho, procurar um buraco. Maré escolheu uma manhã dos arquivos da minha filha aos seis anos, um cachorro e uma poça d’água, e começou a contar com a voz da professora cujo sobrenome eu nunca saberia.

Eu quis entrar naquela manhã… quis ser somente a parte, a mulher miúda de um dia minúsculo, agachada na calçada vendo a filha bater os pés na água suja. Porque entendi, tarde, que era ali onde o sentido morava. Não no todo que o objeto tinha aberto para mim. No avesso dele, na ignorância morna de quem vive uma coisa de cada vez sem saber como acaba. O todo só vale alguma coisa para quem ainda está preso na parte. Visto de fora, inteiro, não vale nada, é uma forma parada no escuro, e eu estava do lado de fora agora, sem uma porta para voltar.

Tentei me agachar naquela calçada e não havia onde. O instante não tem espessura. É um corte sem largura entre o que já foi e o que já será, os dois lados cheios, empurrando, até a manhã da poça ficar tão fina quanto o resto. Lá estava o cachorro novo e o mesmo cachorro já apodrecido na terra, a minha filha de seis anos e a de trinta e oito chorando num quarto que eu nunca veria, tudo na mesma página, e nenhum vão pequeno o bastante onde uma pessoa coubesse, nem que fosse por um segundo.

O frio subiu pelos meus pés. Eu contava com ele para apagar a visão junto, mas não apagou. O peito foi se fechando e o corpo foi encolhendo. E eu continuava vendo, continuava sabendo, e foi nesse momento que o objeto me entregou o que estava guardado para o fim. O fim não era uma porta, era só o corte seguinte, encostado neste, já lá. E depois dele, outro. Em nenhum deles a escuridão me soltava, porque a escuridão era onde eu já estava, onde sempre estive, prensada entre dois infinitos cheios, com parede dos dois lados e sem nada no meio para respirar.

Maré chegou na parte em que eu entro na poça junto com minha filha. Pediu baixinho que eu aguentasse mais um pouco. Não havia mais um pouco. Havia este instante, sem fundo, sem antes para onde recuar e sem depois que chegasse, e eu acordada dentro dele, do tamanho exato de nada, para sempre.

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